No último mês, o mundo perdeu um de seus grandes observadores. Sebastião Salgado, fotógrafo brasileiro reconhecido mundialmente por sua profunda sensibilidade e compromisso com causas humanas e ambientais, faleceu em Paris aos 81 anos. Com uma carreira que atravessou mais de quatro décadas, Salgado não apenas registrou o mundo — ele o traduziu em imagens que nos convidam a enxergar, com mais profundidade, a complexidade do ser humano.

Salgado dizia: “Eu nunca, nunca fotografo a miséria.” E isso é essencial para entender sua obra. Seus retratos de povos em situação de deslocamento, de trabalhadores braçais, de regiões devastadas por guerras ou mudanças climáticas nunca foram sobre o choque ou o sensacionalismo. Foram, sempre, sobre dignidade. Sobre tornar visível aquilo que o mundo insiste em ignorar.
Nascido em Aimorés (MG), em 1944, Salgado formou-se economista e chegou a trabalhar na Organização Internacional do Café. Foi durante viagens de trabalho à África que a fotografia o encontrou — ou melhor, que ele a escolheu como linguagem definitiva. A partir de então, sua trajetória passa por algumas das mais importantes agências do fotojornalismo mundial, como a Gamma e a Magnum.
Mas Salgado ultrapassou os limites do jornalismo. Ao insistir em projetos de longo prazo, realizados muitas vezes com recursos próprios e em colaboração com sua esposa, a curadora Lélia Wanick Salgado, ele criou verdadeiros tratados visuais sobre a condição humana. Seus livros e exposições tornaram-se referências obrigatórias na história da fotografia contemporânea.
Salgado foi um mestre do preto e branco, da luz natural e da composição rigorosa. Sua estética, marcada por imagens monumentais e intensamente simbólicas, não era mero estilo: era parte de sua ética. Ele acreditava que a beleza das imagens não negava a gravidade dos temas — pelo contrário, era um meio de convidar o espectador a permanecer diante da dor, a olhar com mais atenção.
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O Globo
Essa abordagem rendeu prêmios importantes, como o Eugene Smith Award, o Prêmio Hasselblad e inúmeras retrospectivas em instituições como o MoMA de Nova York e o Museu do Louvre. No Brasil, sua ligação com o Instituto Moreira Salles consolidou-se em exposições marcantes que apresentaram ao público séries como Trabalhadores, Êxodos e Gênesis.
Salgado nunca parou. Em entrevista recente ao IMS, afirmou: “Fotógrafo não se aposenta.” Mesmo com a saúde fragilizada por uma malária contraída nos anos 1990, ele continuava ativo, envolvido em projetos e exposições. No dia de sua morte, deveria estar em Reims, na França, para a inauguração dos vitrais criados por seu filho Rodrigo para uma igreja — mais um símbolo de como a arte atravessa gerações em sua família.
O legado de Sebastião Salgado é, sobretudo, um convite à escuta. A escutar o mundo, os povos, a natureza, e a responsabilidade que temos com tudo isso. Suas fotografias nos pedem silêncio e presença. E nos lembram que, mesmo nas maiores tragédias, há humanidade — se estivermos dispostos a vê-la.
Seleção de fotografias emblemáticas de Sebastião Salgado
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Incêndios em Kuwait, 1991 – Um bombeiro caminha diante de uma parede de chamas. Série: Kuwait: A Desert on Fire.

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Garimpo de Serra Pelada, Brasil, anos 1980 – A monumental escadaria de corpos e baldes revela a coreografia brutal do trabalho humano. Série: Trabalhadores.

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Famílias em movimento, Etiópia, 1984-85 – Durante a crise no Sahel, Salgado documenta a seca e o deslocamento sem transformar o sofrimento em espetáculo. Série: Sahel: o homem em aflição.

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A natureza em estado puro, parte de seu projeto Gênesis, que celebra territórios ainda preservados da intervenção humana. Genesis, 2013.

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Povos indígenas no Brasil, 2016-2019 – Um mergulho nas culturas originárias da Amazônia, reafirmando o compromisso com a diversidade e a preservação ambiental. Série: Amazônia.
