Sheikha Hoor Al Qasimi, presidente e diretora fundadora da Sharjah Art Foundation, ocupa uma posição central no cenário da arte contemporânea global. Em 2024, ela foi reconhecida como a figura mais influente do mundo da arte na prestigiada lista Power100 da ArtReview. Esse reconhecimento não apenas reafirma a importância de seu trabalho, mas também destaca como ela conseguiu redefinir o papel da arte do Sul Global na narrativa cultural internacional.
Em um momento em que a arte busca respostas para os desafios da representação, do diálogo intercultural e da sustentabilidade, Al Qasimi se apresenta como uma liderança visionária. À frente de projetos como a Sharjah Biennial, a Aichi Triennale e a Biennale de Sydney, ela tem pavimentado novos caminhos para artistas, curadores e instituições culturais ao redor do mundo.

(c)SEBASTIAN BÖTTCHER
Uma trajetória visionária
Nascida nos Emirados Árabes Unidos, Sheikha Hoor cresceu cercada por uma rica herança cultural em Sharjah, uma cidade conhecida por sua tradição de promover a arte e o conhecimento. Mas foi em 2002, durante uma visita à Documenta em Kassel, Alemanha, que ela teve uma epifania artística. Essa exposição, com curadoria de Okwui Enwezor, explorava questões de migração, urbanização e experiências pós-coloniais, apresentando artistas de todo o mundo.
“Fiquei profundamente inspirada. Foi uma experiência transformadora para mim”, ela relembrou em entrevista para a ArtNet. Mas a inspiração veio acompanhada de questionamentos: “Por que as pessoas precisam viajar até Kassel para ver esse tipo de arte? E quanto àquelas que não têm acesso a esses espaços?”
Ao retornar aos Emirados Árabes Unidos, então com apenas 22 anos, assumiu a direção da Sharjah Biennial. Era a mais jovem da equipe e a única mulher. Apesar da resistência inicial – metade da equipe renunciou quando ela sugeriu uma abordagem mais ousada e global – Al Qasimi persistiu. Desde então, a Sharjah Biennial se transformou em uma plataforma de renome internacional, reconhecida por sua abordagem inovadora e inclusiva.
O estilo curatorial de Sheikha Hoor Al Qasimi
O estilo curatorial de Al Qasimi é definido por sua abordagem profundamente colaborativa, interdisciplinar e enraizada no contexto histórico e cultural de cada projeto. Para ela, curadoria é mais do que uma prática expositiva – é um espaço de troca, diálogo e criação de significados.
- Narrativas Locais e Globais em Diálogo
Al Qasimi prioriza o engajamento com as histórias locais e regionais, ao mesmo tempo em que conecta essas narrativas com questões globais. Sua prática frequentemente explora as relações entre o passado e o presente, destacando vozes que foram marginalizadas ou esquecidas pelas instituições tradicionais.
Ela acredita que a arte deve ser acessível e relevante para as comunidades locais onde as exposições acontecem. Em Sydney, por exemplo, ela está profundamente comprometida em trabalhar com artistas aborígenes e comunidades locais, integrando suas histórias e perspectivas na narrativa da Biennale de 2026.
- Multidisciplinaridade e Experimentação
Outro elemento central em sua prática é a multidisciplinaridade. Ao longo de sua carreira, Al Qasimi trabalhou com uma ampla gama de mídias – incluindo artes visuais, cinema, música, dança, arquitetura, literatura e design. Sua abordagem é inovadora, incentivando artistas a explorar novos formatos e a cruzar fronteiras disciplinares.
Na Sharjah Art Foundation, ela liderou projetos que vão desde a restauração de edifícios históricos até a criação de espaços imersivos para performances contemporâneas. Essa integração entre tradição e experimentação é uma característica distintiva de seu trabalho.
- Foco na Representação e Inclusão
A busca por representação autêntica é uma das marcas registradas de sua abordagem curatorial. Al Qasimi questiona as narrativas dominantes que muitas vezes categorizam artistas do Sul Global como exceções ou “curiosidades”. Para ela, a inclusão de artistas é sempre baseada na força de suas práticas, e não em pressões externas de mercado ou demandas de representatividade superficial.
“Não quero que os artistas sintam que estão sendo escolhidos para preencher cotas. Eles são incluídos porque suas práticas merecem ser vistas e discutidas”, enfatiza.
- Curadoria Como Proximidade
Uma característica única de seu estilo é sua proximidade com os artistas e as comunidades com as quais trabalha. Al Qasimi faz questão de passar longas horas em visitas a estúdios, conversando diretamente com artistas e acompanhando de perto cada etapa dos projetos que lidera.
Essa abordagem prática e engajada é resultado de seus primeiros anos na Sharjah Biennial, onde ela desempenhou funções que iam desde colar etiquetas em obras até supervisionar a montagem técnica. “Eu estava aprendendo ao lado da equipe técnica. Esse tipo de trabalho me ensinou a importância dos detalhes e da colaboração.”
Sharjah Art Foundation: um legado em construção
Em 2009, Al Qasimi fundou a Sharjah Art Foundation, consolidando seu compromisso de promover a arte contemporânea na região e além. A fundação organiza exposições internacionais, residências artísticas, comissões, publicações e programas educacionais. Também é responsável pela curadoria da Sharjah Biennial, que hoje é uma das bienais mais respeitadas do mundo.
A 15ª edição da Sharjah Biennial, intitulada “Thinking Historically in the Present”, foi um marco. Originalmente planejada por Okwui Enwezor antes de sua morte, a bienal foi finalizada por Al Qasimi, que honrou a visão de seu mentor enquanto adicionava sua própria sensibilidade curatorial. O evento explorou a relação entre o passado e o presente, destacando narrativas frequentemente negligenciadas na história da arte.

Mary Sibande, Um retrocesso invertido, cena 1, (2013). Vista da instalação: Sharjah Biennial 15, Al Hamriyah Studios, 2023. Imagem cortesia da Sharjah Art Foundation. Foto: Motaz Mawid
Aichi Triennale e Biennale de Sydney: desafios globais e sensibilidades locais
Na Aichi Triennale de 2025, Al Qasimi aborda o impacto humano no meio ambiente e as consequências da destruição. Inspirada pelo poema “A Time Between Ashes and Roses”, de Adonis, e pelo mangá Kitarubeki Sekai, ela propõe um diálogo entre o apocalíptico e o esperançoso.
Já na Biennale de Sydney, seu foco será a celebração das histórias locais, com ênfase na arte aborígene e no engajamento comunitário. “Sempre vejo as bienais como uma oportunidade de conexão real com os lugares onde acontecem. Não basta montar uma exposição – é preciso criar diálogos profundos e duradouros”, afirma.
Com uma abordagem curatorial que une inovação, respeito às tradições locais e compromisso com a inclusão, Sheikha Hoor Al Qasimi está redesenhando o mapa da arte contemporânea. Suas realizações em Sharjah, Aichi e Sydney mostram como a arte pode ser uma força poderosa para conectar culturas, desafiar narrativas hegemônicas e imaginar futuros mais inclusivos.
Seu trabalho nos lembra que, em um mundo cada vez mais globalizado, a verdadeira arte transcende fronteiras e celebra a diversidade de vozes e perspectivas. Al Qasimi não apenas lidera, mas inspira – e o impacto de sua visão será sentido por gerações.
Referências:
https://www.arteinformado.com/guia/f/hoor-al-qasimi-167465
https://www.biennaleofsydney.art/hoor-al-qasimi/
https://artreview.com/sheikha-hoor-al-qasimi-tops-the-annual-artreview-power-100/
https://asiasociety.org/asia-game-changer-awards/hoor-al-qasimi