O Panorama da Arte Brasileira, programa de exposições criado em 1969 pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM SP), ocupa um lugar central na história da arte contemporânea no Brasil. Inicialmente concebido como um meio de reestruturação institucional após a transferência de seu acervo para a Universidade de São Paulo, o Panorama buscava estabelecer um novo acervo para o MAM e ao mesmo tempo revitalizar sua programação cultural. Desde sua criação, a exposição tem desempenhado um papel fundamental na consolidação do museu como um espaço de reflexão crítica sobre a arte brasileira.
A primeira edição do Panorama coincidiu com a instalação do MAM em sua sede definitiva na marquise do Parque Ibirapuera, e foi concebida como uma resposta às necessidades de reconstrução do museu. Com curadorias ligadas diretamente à equipe do MAM, as primeiras edições tinham como foco mapear as tendências artísticas do Brasil e formar um recorte da “arte brasileira atual”. Além de consolidar o acervo institucional, essas exposições estabeleceram um diálogo entre a produção artística e as demandas de um país em transformação.
Entre as décadas de 1990 e 2000, o Panorama da Arte Brasileira passou por uma transformação significativa. A curadoria, antes centrada em membros da equipe do MAM, começou a ser delegada a curadores independentes, trazendo perspectivas autorais e reflexões mais amplas sobre a arte contemporânea brasileira. Esse período marcou uma inflexão no programa: os textos curatoriais tornaram-se mais críticos e autorreferentes, deslocando a ideia de “arte atual” para uma discussão conceitual sobre a arte contemporânea em sua relação com a modernidade e os mitos fundadores da arte brasileira.
Ao longo desse processo, o modernismo emergiu como um referencial predominante, servindo tanto como parâmetro quanto como contraponto para discutir as características e as singularidades da arte contemporânea nacional. Essa nova abordagem permitiu que o Panorama se transformasse em um espaço não apenas de exposição, mas também de problematização do legado modernista e de renovação dos discursos artísticos.
A edição de 2024, intitulada Mil Graus, reflete a continuidade dessa evolução crítica do Panorama. Sob a curadoria de Germano Dushá, Thiago de Paula Souza e Ariana Nuala, a mostra apresenta mais de 130 obras de artistas de 16 estados brasileiros, organizadas em cinco eixos temáticos: Ecologia Geral, Territórios Originários, Chumbo Tropical, Corpo-Aparelhagem e Transes e Travessias. Esses temas articulam reflexões sobre ecologia, identidades originárias, críticas à representação nacional, transformações corporais e experiências transcendentais, sob a metáfora de um “calor-limite” — o ponto em que tudo se dissolve e se transforma.

O trio curatorial do 38º Panorama da Arte Brasileira: Germano Dushá, Thiago de Paula Souza e Ariana Nuala (Leo Martins/Veja SP)
Além de destacar a produção artística contemporânea, o 38º Panorama também marca um momento de colaboração institucional. Com a sede do MAM em reforma, a exposição é acolhida pelo Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC USP), reafirmando a histórica conexão entre as duas instituições. Essa parceria não só assegura a continuidade do programa, mas também promove o diálogo entre seus acervos e equipes curatoriais, ampliando o alcance do debate em torno da arte brasileira.
O Panorama da Arte Brasileira se consolidou ao longo de suas edições como um espaço privilegiado para examinar a pluralidade da produção artística no país. Sua evolução, de um mapeamento institucional para uma plataforma de questionamento crítico, reflete não apenas as mudanças na arte brasileira, mas também a maturidade de um programa que continua a ressignificar sua relevância cultural e histórica. A edição Mil Graus reafirma esse compromisso, abordando a realidade contemporânea sob uma ótica de transformação e resistência, enquanto celebra a capacidade da arte de atravessar limites, sejam eles históricos, ecológicos ou sociopolíticos.