A descolonização de museus é um movimento crescente que visa repensar e reestruturar as práticas curatoriais, artísticas e institucionais dentro do contexto da arte contemporânea. Esse conceito propõe a revisão de legados coloniais, que ainda permeiam o campo da arte, a fim de criar espaços mais inclusivos e representativos, onde múltiplas vozes, histórias e perspectivas possam ser ouvidas e reconhecidas.
Historicamente, os museus e instituições de arte foram fundados sob a égide de um sistema eurocêntrico e colonialista, muitas vezes ignorando ou distorcendo as contribuições de culturas não ocidentais. A descolonização de museus busca, portanto, desmantelar essas estruturas de poder, oferecendo uma nova compreensão sobre quem é representado na arte e quem tem acesso a ela.
A ideia de descolonização vai além da simples inserção de artistas de grupos marginalizados nas exposições de arte. Ela envolve uma reavaliação crítica das narrativas dominantes que formam a base da história da arte. Ao revisar essas histórias, os museus podem começar a questionar e desmantelar os estereótipos e as práticas discriminatórias que ainda permeiam suas coleções e exposições.
Um exemplo de projeto descolonial importante é a colaboração entre o MASP (Museu de Arte de São Paulo) e o Afterall, centro de pesquisa e publicação da University of the Arts de Londres. Juntos, esses centros têm promovido uma série de seminários e publicações que questionam e criticam os legados coloniais presentes nas práticas artísticas, curatoriais e críticas. Entre os seminários realizados, destacam-se os encontros de 2018 e 2019, com a participação de pensadores como Suely Rolnik, Jota Mombaça e Gabi Ngcobo, que exploraram a descolonização da arte e sua inserção nas instituições.
Artistas e projetos relevantes
Artistas e curadores como Denilson Baniwa, Claudinei Roberto da Silva e Daniel Caballero têm sido fundamentais nesse movimento de descolonização, trazendo suas perspectivas únicas sobre como as práticas artísticas podem refletir as experiências e os legados coloniais, ao mesmo tempo que propõem novas formas de se relacionar com a história e a cultura.
Denilson Baniwa, por exemplo, com sua exposição “Terra Brasilis: O Agro Não é Pop!”, aborda as questões relacionadas à terra, à política do agronegócio e às transformações ambientais, refletindo sobre a presença indígena no Brasil e como essa presença tem sido representada, ou negligenciada, pela arte ocidental. Sua arte se posiciona contra a visão estereotipada do indígena e propõe uma nova forma de se representar a identidade indígena nas artes visuais contemporâneas.
Denilson Baniwa, obra da exposição “Terra Brasilis: O Agro Não é Pop!”
Claudinei Roberto da Silva, que foi curador da exposição “Pretatitude. Insurgências, emergências e afirmações. Arte afro-brasileira contemporânea” (Sesc São Paulo) e curador convidado para o projeto de “Pesquisa MAC USP Processos Curatoriais – Curadoria Crítica e Estudos Decoloniais em Artes Visuais: Diásporas Africanas nas Américas”, por sua vez, questiona a estrutura das instituições artísticas e a necessidade de um compromisso real com práticas e políticas decoloniais. Ele acredita que as instituições não podem ser consideradas decoloniais apenas por promoverem exposições de artistas de minorias; elas devem incorporar esses grupos em seus quadros de colaboradores, promovendo mudanças estruturais que reflitam as necessidades e visões de diferentes comunidades.
Vista de “Pretatitude”, SESC Ribeirão Preto, SP, 2018
Já Daniel Caballero, com seu projeto “Cerrado Infinito”, propõe uma “descolonização vegetal” ao tentar recriar a paisagem do cerrado brasileiro em ambientes urbanos, questionando o uso de espécies exóticas que substituíram a flora nativa, e ressignificando o que foi historicamente ignorado ou destruído.
A Descolonização como processo contínuo
A descolonização dos museus é um processo contínuo, que exige uma reflexão profunda sobre as práticas institucionais, as coleções e as exposições, além de um comprometimento com a inclusão de novas vozes e histórias. Não se trata apenas de um ato simbólico, mas de um movimento radical que questiona as bases do sistema de arte contemporâneo, reimaginando o que significa arte e quem a faz, quem a consome e quem decide o que é considerado arte legítima.
A arte decolonial, portanto, não é apenas uma reação ao colonialismo do passado, mas uma ação contínua para transformar as instituições e as práticas culturais, garantindo que as vozes históricamente marginalizadas tenham o devido reconhecimento e espaço nas narrativas globais da arte.
Referências:
COCOTLE, Brenda Caro. Nós prometemos descolonizar o museu: uma revisão crítica da política museal contemporânea. MASP Afterall. Disponível em: https://masp.org.br/uploads/temp/temp-X87a1s0ahKuQghS3VJ4D pdf, 2019.